sábado, 1 de dezembro de 2012


O poeta e o Rio

Ana Néres Pessoa Lima Góis


A História é feita de homens, homens e rios, e quis o destino como num enredo de um festejado cordel, tecer a trama em que estes fossem a salvação e perdição um do outro.

O Rio corre e nunca foge do destino que leva consigo nas suas correntezas, o destino de ser sempre o mesmo e de nunca voltar a ser. O homem nasce, cresce e vive às suas margens e tem a sina de sempre banhar-se em águas diferentes, mesmo atracado num só porto. Somente o homem tem o poder sobre a vida do rio, mesmo sendo mais frágil do que este. E o rio que sustenta a vida do homem poderá tirá-la a qualquer momento.

É certo que quem bebe das águas de certos rios fica cativo, e num vale chamado Mearim dizem que o Rio produz uma grande quantidade de vates às suas margens, e esses profetas cantam e encantam em seus arredores. E assim a correnteza vai levando a vida, literalmente, enquanto observa a história sendo levada sempre ao presente por uma correnteza de acontecimentos.

Porém as ações dos homens e do Rio que fazem que refazem a História não permanecem por si só, pois as folhas do tempo são frágeis e se desbotam ao calor de novos acontecimentos, ou ao salpicar das águas de fortes correntezas. Então é preciso escrever enquanto se navega, e os mensageiros impostos pelo Rio enquanto relatam olham muito mais a paisagem e aproveitam-na em suas delícias.

Durante os passeios intermináveis fazem da história de seu povo canções, pintam quadros poéticos de suas margens e se encantam com as sereias que disfarçadamente lavam roupas para vê-los passar.
Pela manhã ao acordar envolto do vento agradável que sopra das margens até o balouçar da rede de algodão armada na lancha, percebem a lida do homem que sobrevive do rio, e a lida do rio que tenta sobreviver ao homem. Ao meio dia percebe-se que os pratos dos ribeirinhos não se fazem mais fartos como antes, porque “o rio não está mais pra peixe”, e na próxima parada discute-se com a comunidade uma maneira de apaziguar esse duelo entre a natureza e o sustento da vida.

No início da tarde quente apenas refresca os pés nas águas, pois a visão dos dejetos não lhe permite um mergulho com a consciência tranquila e faz um poema sobre a possível morte do rio, e percebe o quanto ainda tem a pensar e dizer sobre isso... sobre o rio, sobre a cidade que ele banha, e as vezes que soterra a vida em sua fúria natural, mostrando que também pode traçar sentenças, antes que venha a perecer na teia das sentenças dos homens.

A noite chega e se entrega então aos encantos da lua, e quem sabe das musas sereias de água e beijos doces que povoam o imaginário dos poetas do Rio. É hora de esquecer as mágoas do dia e dos dias e numa roda de viola cantar as canções da vida, recitar os relatos do que viu, sentiu e ouviu...

E assim o tempo vai passando enquanto o poeta do Rio registra sua vida e a vida ao seu redor, pois o tempo passa assim como a correnteza e em sendo cúmplice do Rio, mensageiro que se fez sua voz, não foi favorecido com a imortalidade que já nem sabe-se se o próprio Rio tem, porém sabendo o Rio que perderá seu profeta antes que ele mesmo se perca, sopra-lhe um conselho no vento: Escreves e escreves, assim serás imortal. E quem sabe um dia eu me torne somente recordação nos teus poemas, selando assim a nossa infinda parceria.

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