O poeta e o Rio
Ana Néres Pessoa Lima Góis
A História é feita de homens,
homens e rios, e quis o destino como num enredo de um festejado cordel, tecer a
trama em que estes fossem a salvação e perdição um do outro.
O Rio corre e nunca foge do
destino que leva consigo nas suas correntezas, o destino de ser sempre o mesmo
e de nunca voltar a ser. O homem nasce, cresce e vive às suas margens e tem a
sina de sempre banhar-se em águas diferentes, mesmo atracado num só porto.
Somente o homem tem o poder sobre a vida do rio, mesmo sendo mais frágil do que
este. E o rio que sustenta a vida do homem poderá tirá-la a qualquer momento.
É certo que quem bebe das águas de
certos rios fica cativo, e num vale chamado Mearim dizem que o Rio produz uma
grande quantidade de vates às suas margens, e esses profetas cantam e encantam
em seus arredores. E assim a correnteza vai levando a vida, literalmente,
enquanto observa a história sendo levada sempre ao presente por uma correnteza
de acontecimentos.
Porém as ações dos homens e do Rio
que fazem que refazem a História não permanecem por si só, pois as folhas do
tempo são frágeis e se desbotam ao calor de novos acontecimentos, ou ao
salpicar das águas de fortes correntezas. Então é preciso escrever enquanto se
navega, e os mensageiros impostos pelo Rio enquanto relatam olham muito mais a
paisagem e aproveitam-na em suas delícias.
Durante os passeios intermináveis
fazem da história de seu povo canções, pintam quadros poéticos de suas margens
e se encantam com as sereias que disfarçadamente lavam roupas para vê-los
passar.
Pela manhã ao acordar envolto do
vento agradável que sopra das margens até o balouçar da rede de algodão armada
na lancha, percebem a lida do homem que sobrevive do rio, e a lida do rio que
tenta sobreviver ao homem. Ao meio dia percebe-se que os pratos dos ribeirinhos
não se fazem mais fartos como antes, porque “o rio não está mais pra peixe”, e
na próxima parada discute-se com a comunidade uma maneira de apaziguar esse
duelo entre a natureza e o sustento da vida.
No início da tarde quente apenas
refresca os pés nas águas, pois a visão dos dejetos não lhe permite um mergulho
com a consciência tranquila e faz um poema sobre a possível morte do rio, e
percebe o quanto ainda tem a pensar e dizer sobre isso... sobre o rio, sobre a cidade
que ele banha, e as vezes que soterra a vida em sua fúria natural, mostrando
que também pode traçar sentenças, antes que venha a perecer na teia das
sentenças dos homens.
A noite chega e se entrega então
aos encantos da lua, e quem sabe das musas sereias de água e beijos doces que
povoam o imaginário dos poetas do Rio. É hora de esquecer as mágoas do dia e
dos dias e numa roda de viola cantar as canções da vida, recitar os relatos do
que viu, sentiu e ouviu...
E assim o tempo vai passando
enquanto o poeta do Rio registra sua vida e a vida ao seu redor, pois o tempo
passa assim como a correnteza e em sendo cúmplice do Rio, mensageiro que se fez
sua voz, não foi favorecido com a imortalidade que já nem sabe-se se o próprio
Rio tem, porém sabendo o Rio que perderá seu profeta antes que ele mesmo se
perca, sopra-lhe um conselho no vento: Escreves e escreves, assim serás
imortal. E quem sabe um dia eu me torne somente recordação nos teus poemas,
selando assim a nossa infinda parceria.

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